A grande pausa, poder coletivo ~ Semana de apoio à amamentação das mulheres negras

Esta semana foi criada nos Estados Unidos da América, mas já é celebrada no Brasil e no Reino Unido. Porquê?

Nestes países existe uma taxa de mortalidade infantil maior entre os bebés de mulheres negras, comparando com os bebés de mulheres brancas. Nos Estados Unidos, a taxa de sucesso da amamentação nas mulheres negras é de 73%, nas mulheres brancas é de 86%, segundo o relatório do Centro de Controle de Doenças e Prevenção (CDC). No Reino Unido, segundo um questionário sobre a alimentação dos bebés em 2010, as mulheres negras tinham uma percentagem maior na iniciação da amamentação, comparando com as mulheres brancas (96%-79%), nas primeiras 6 semanas e nos primeiros 6 meses também (89%- 65% e 64%-40%) (fonte: Lalecheleague GB). No entanto, esta semana é celebrada, devido ao alto índice de mortalidade nas mulheres negras. Comparando com as mulheres brancas, as mulheres negras têm cinco vezes  maior probabilidade de morrer de complicações durante a gravidez, no parto ou pós-parto. No Brasil, não existem dados concretos sobre a amamentação e raça, mas, tendo em conta que o índice de mortalidade dos bebés negros é duas vezes maior que o dos bebés brancos, faz sentido começar a falar sobre isso. Os bebés negros morrem duas a três vezes mais que bebés brancos.

Normalmente, estes bebés nascem muito pequenos, muito doentes ou muito cedo e, por isso, precisam muito da imunidade e nutrição do leite materno. Aumentar o sucesso da amamentação entre as mulheres negras pode diminuir em 50% a taxa de mortalidade infantil.

     A falta de representatividade e diversidade de profissionais na área do apoio à amamentação e a  falta de consultoras de amamentação negras e na comunidade negra fazem parte deste problema. As mulheres negras não têm muita informação sobre a amamentação, não sabem a quem recorrer e nem como ultrapassar muitas dificuldades que encontram.

    Há dificuldade em manter a amamentação antes dos seis meses em exclusivo: a  maior parte das mulheres negras tem de começar a trabalhar antes dos seis meses em trabalhos que não facilitam a amamentação, desconhecendo inclusive  até a lei que protege o aleitamento materno. Os seus bebés fazem o desmame do leite materno muito cedo, porque passam a ter outros cuidadores e a usar o biberão ou começam a alimentação complementar muito cedo, para que não passem fome na ausência das mães. 

     A falta de informação, a confiança nos conselhos de pessoas mais velhas que não foram bem sucedidas na amamentação, a herança da escravatura em que as mães negras eram obrigadas a amamentar os filhos dos seus donos em detrimento dos seus próprios filhos deixam marcas e contribuem para o insucesso da amamentação na comunidade negra. 

 Não temos dados sobre a comunidade negra em Portugal, também neste tema somos invisíveis, não existimos. Na verdade, não existe este tipo de pesquisa que faça o cruzamento entre etnia e amamentação. E, por isso, é importante relembrar que as mulheres que pertencem à comunidade negra também podem ter dificuldades na amamentação e que é um mito a ideia de que as mulheres negras têm uma taxa de 100% de sucesso na amamentação dos seus filhos. 

     A imagem que temos normalmente é a da ama de leite que amamentava os filhos dos outros. Se pensarmos bem nessas imagens, quase nunca se vê a ama a amamentar os seus próprios filhos. Muitas destas mulheres eram violadas pelos donos para estarem grávidas na mesma altura que as mulheres brancas e afastadas dos seus filhos para estarem concentradas na amamentação dos seus donos. 

Todas essas questões podem ser cargas pesadas de carregar e, por isso, este ano o tema é A grande pausa colectiva, a hora do descanso para fortalecer o colectivo (“The big pause, colective power”). Está na hora das mulheres negras descansarem e se fortalecerem umas às outras, terem um suporte colectivo mais forte e focado.

Estaremos preparados para falar sobre isso? Espero que sim.

Carolina Coimbra, Associada.

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