No parto, como na vida

A vida, tal como o parto, é feita de escolhas. Muitas dessas escolhas implicam riscos.

A vida, tal como o parto é imprevisível.

A vida, tal como o parto, implica coragem.

Na vida tal como no parto temos de ter a dose certa de planeamento, informação, flexibilidade e jogo de cintura para improvisar quando o que não esperávamos ou queríamos acontece.

Mas como escolher? E o que escolher? Quem sou eu para opinar dos riscos das minhas escolhas? Na verdade se pensares bem, estás até bastante bem posicionada para saberes o que te faz sentido, de acordo com o que diz a evidência, o que te dita a tua consciência, a tua filosofia de vida e até a tua intuição. Se antes da Era da internet e redes sociais a informação era publicada num jornal científico e os comuns mortais não lhe tinham acesso, isso agora mudou.  A evidência científica está ao alcance de todas e todos. (Sendo que isso não exclui que essa informação deva ser explicada, traduzida, tornada mais acessível e trocada “por miúdos” às mulheres e suas famílias durante as consultas. A tónica deve estar nos prestadores de cuidados. Não são as mulheres que têm ***obrigação*** de a procurar e encontrar). A legitimidade de avaliarmos o que para nós é ou não um risco aceitável também.

Mas tomemos como exemplo, estas afirmações. Não, não são inventadas, nem ninguém me contou. Presenciei-as e algumas vivi-as na pele, quando grávida.

“Mas se não se cortar, depois rasga por todo o lado e depois fica incontinente para toda a vida.”

“Olhe, veja este filme “Pieces of a Woman”. E depois falamos e fica a perceber finalmente os perigos dessa moda do parto natural. “

“Não tem líquido quase nenhum. Basicamente o seu bebé está seco aí dentro.”

É de facto tão fácil assustar uma grávida.

Estas afirmações não só falsas e sem base científica. Têm também o propósito bastante claro de assustar. E fazer a pessoa grávida sentir-se culpada por ter sequer pensado em ter opiniões ou fazer perguntas. Essa culpa traz a dissonância cognitiva. Que por sua vez leva a um “desligar” interno. Uma desistência. A linguagem utilizada pelos profissionais na forma como comunicam o risco tem um impacto importante nas mulheres e suas famílias, e nas expetativas que vão ter (ou não) do seu parto.

Então como nos podemos escudar com ferramentas que nos ajudem a aferir os riscos que para nós são aceitáveis, e os riscos que para nós não são negociáveis?

Procura a informação. Faz um Plano de preferências de Parto. Rodeia-te da tua tribo, aquelas pessoas que torcem por ti, te apoiam e compreendem. Encontra profissionais atualizados, que apresentem informação de forma isenta e sem escolherem por ti. E mais importante que tudo, confia. Confia em ti, no teu corpo, na tua intuição, na tua decisão.

Tu és a especialista e a personagem principal da tua vida. E claro, a especialista e protagonista do teu parto.

Sara do Vale – associada

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