Quanto vale o teu consentimento?

Quando comecei a terapia com a Vera, estava num lugar escuro. A minha filha tinha nascido há dois meses, perfeitinha, com os dedinhos todos, mas eu não me sentia capaz de ser sua mãe. Navegava os dias entre a ansiedade de que alguma coisa lhe pudesse acontecer e a apatia total, uma falta de vontade para fazer fosse o que fosse.

E a culpa desta situação era minha. Não me tinha preparado para o que ia ser o parto e, por isso, não soube o meu corpo imperfeito, de meia mulher, sequer parir uma criança. Os médicos, coitados, fizeram o que puderam, cortaram, forçaram, coseram, e ela cá está, saudável e perfeita.

Hoje a Diana faz cinco meses e eu ganhei finalmente coragem para contar à Vera tudo o que se passou no meu parto.

 – Mariana, se soubesse que um bebé precisava de um rim para sobreviver, seria capaz de o tirar à força do corpo de alguém?

Silêncio. A resposta para isto é tão óbvia para qualquer um de nós que quase nem merece ponderação.

– Claro que não – respondi.

Como é que uma resposta tão óbvia para uma situação, tinha sido para mim, mas não só para mim, para todos à minha volta, tão diferente quando pensava no meu próprio parto? A sensação de impotência voltou em força ao relembrar o que tinha acontecido, mas com ela uma nova visão do que realmente me atormentava: eu não era eu no meu parto, era um corpo vazio de desejos e vontades; um eu invisível que não teve uma palavra a dizer sobre tudo o que se passou.

E foi isto que eu levei para o meu pós-parto, escondido sob um sentimento de que “as coisas são mesmo assim e não vale a pena pensar muito nisso”. Eu era capaz de ter tomado decisões, se ao menos me tivessem informado e perguntado. Tivesse sido esse o tom do meu parto – participativo, valorizado, autodeterminado – e talvez o meu pós-parto tivesse sido efetivamente vivo e vivido. Com ênfase na vida e não na simples sobrevivência.

Consegui hoje, com a ajuda da Vera, olhar para mim e para a minha filha com um olhar complacente, por tudo o que nos aconteceu, e perceber que vou sempre a tempo de reconstruir a nossa relação e a minha relação comigo mesma, com mais força e mais amor.

Esta é uma crónica ficcional, feita com base em histórias que fui ouvindo ao longo do tempo. Qualquer semelhança com nomes, factos ou situações reais é pura coincidência.

Filipa Carvalhosa – associada

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